Cardiopatia grave dá direito à isenção do Imposto de Renda? Guia para aposentados e pensionistas

Cardiopatia grave dá direito à isenção do Imposto de Renda? Guia para aposentados e pensionistas

Publicado em 19/10/2025 · Atualizado em 10/10/2026 · 10 min de leitura · Igor Menezes Advogados (OAB/RS 12.534)

Sim. A cardiopatia grave está na lista do art. 6º, XIV, da Lei 7.713/1988, e o aposentado, pensionista ou militar reformado que a tem fica isento do Imposto de Renda sobre os proventos. O ponto central é provar a gravidade: o laudo precisa mostrar, com exames, o comprometimento do coração, como fração de ejeção reduzida ou limitação funcional importante. O direito continua depois de cirurgia ou com a doença controlada (Súmula 627 do STJ), e é possível recuperar o imposto dos últimos cinco anos, desde o diagnóstico.

Doenças do coração estão entre as mais comuns na terceira idade, e muitos aposentados convivem com infarto prévio, insuficiência cardíaca, arritmias ou cirurgias cardíacas sem saber que podem ter direito à isenção do Imposto de Renda. Ao mesmo tempo, a cardiopatia é uma das hipóteses que mais geram negativas, porque a lei exige que ela seja grave, e não apenas que exista.

Este guia explica o que se considera cardiopatia grave, quais condições costumam se enquadrar, o papel de stent, marcapasso e cirurgia, como deve ser o laudo e qual caminho seguir para pedir a isenção e a devolução do imposto.

O que diz a lei

O art. 6º, XIV, da Lei 7.713/1988 isenta do Imposto de Renda os proventos de aposentadoria e reforma de quem tem cardiopatia grave, e o inciso XXI do mesmo artigo estende a isenção às pensões. A lei, porém, não define o que é cardiopatia grave. Essa definição vem da medicina especializada e é aplicada pelos peritos e pelos juízes caso a caso.

É por isso que duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem ter resultados diferentes: o que se avalia é o grau de comprometimento do coração de cada uma.

O que é considerado cardiopatia grave

A referência mais usada é a diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre cardiopatia grave. Ela não se baseia em um único exame ou diagnóstico, mas na combinação de três elementos:

  • limitação funcional: o quanto a doença restringe as atividades, medido em geral pela classificação da NYHA, em que as classes III e IV indicam limitação importante;
  • comprometimento objetivo do coração: demonstrado por exames, como a fração de ejeção do ventrículo esquerdo no ecocardiograma, frequentemente igual ou inferior a 40% nos casos graves;
  • prognóstico: o risco de agravamento, de eventos cardíacos maiores ou de morte.

Na prática, um laudo que apenas nomeia a doença, sem demonstrar esses elementos, costuma ser recusado. Um laudo que traz os números dos exames e explica por que a doença é grave tem muito mais força.

Condições que costumam ser enquadradas

Condição Quando costuma ser considerada grave
Insuficiência cardíaca Fração de ejeção reduzida e limitação funcional importante (NYHA III ou IV)
Doença coronariana (angina, infarto prévio) Lesões em várias artérias ou no tronco da coronária esquerda, ou disfunção do ventrículo após infarto
Valvopatias (estenose aórtica, insuficiência mitral) Repercussão sobre o funcionamento do coração, com ou sem cirurgia de troca valvar
Miocardiopatias (dilatada, hipertrófica, restritiva) Disfunção ventricular ou obstrução significativa
Arritmias Taquicardia ventricular sustentada, bloqueios avançados com marcapasso definitivo, uso de cardiodesfibrilador
Cardiopatia chagásica Comprometimento cardíaco da doença de Chagas com disfunção ou arritmia
Hipertensão pulmonar e cardiopatias congênitas Repercussão sobre o ventrículo direito ou limitação funcional
Transplante cardíaco Em regra, enquadrado

Por outro lado, algumas situações, isoladamente, costumam não ser suficientes: hipertensão arterial controlada sem lesão no coração, extrassístoles isoladas, prolapso da válvula mitral sem insuficiência importante e alterações leves de relaxamento do ventrículo. Isso não impede o pedido, mas exige demonstrar que há comprometimento além do diagnóstico básico.

Stent, marcapasso, ponte de safena e cirurgia: dão direito?

Esses procedimentos não garantem a isenção automaticamente, mas também não a afastam. Eles são tratamentos, e indicam que existe uma doença cardíaca relevante por trás. O que se avalia é a doença de base e o comprometimento que ela causou ou ainda causa.

Quem colocou stent depois de um infarto com perda de função do ventrículo, por exemplo, tende a se enquadrar. Quem implantou marcapasso por bloqueio avançado também. Já um stent colocado preventivamente, sem infarto e sem disfunção, exige análise mais cuidadosa.

E, uma vez reconhecida a cardiopatia grave, o sucesso da cirurgia não retira o direito. A Súmula 627 do STJ dispensa a demonstração de sintomas atuais, tema tratado no artigo sobre doença grave curada ou controlada.

Qual é o CID da cardiopatia grave

Não existe um CID único para cardiopatia grave. O laudo deve informar o código da doença de base, e a gravidade é demonstrada pelos exames e pela avaliação do médico. Os grupos mais comuns da CID-10 são:

  • I50: insuficiência cardíaca;
  • I20 a I25: doenças isquêmicas do coração, como angina e infarto;
  • I34 a I37: doenças das valvas cardíacas;
  • I42: cardiomiopatias;
  • I44 a I49: bloqueios e arritmias;
  • I27: hipertensão pulmonar e outras doenças cardiopulmonares;
  • B57.2: doença de Chagas crônica com comprometimento cardíaco;
  • Q20 a Q28: malformações congênitas do coração.

Como deve ser o laudo do cardiologista

Na via administrativa, o art. 30 da Lei 9.250/1995 exige laudo de serviço médico oficial. Na Justiça, a Súmula 598 do STJ admite o laudo do cardiologista particular e outros documentos. Em qualquer caso, o laudo deve conter:

  1. o diagnóstico e o CID da doença de base;
  2. a afirmação expressa de que se trata de cardiopatia grave, com a justificativa;
  3. a classe funcional da NYHA;
  4. a fração de ejeção e os demais achados dos exames;
  5. a data do primeiro diagnóstico;
  6. os procedimentos realizados, como cateterismo, stent, cirurgia ou marcapasso;
  7. nome, assinatura, CRM e carimbo do médico.

O laudo deve vir acompanhado dos exames que o sustentam: ecocardiograma, eletrocardiograma, Holter, teste ergométrico ou cintilografia, cateterismo e relatórios de internação, quando houver.

Um cuidado importante: quando o laudo particular diverge de uma avaliação oficial anterior, ele pode não bastar por si só. Em 2024, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal negou um pedido de suspensão imediata do desconto exatamente por essa divergência (Acórdão 1940253, 2ª Turma Cível). Nesses casos, a força dos exames objetivos e, se necessário, a perícia judicial fazem a diferença.

A data do diagnóstico define quanto você recupera

Na cardiopatia, é comum que a doença tenha sido constatada anos antes do laudo apresentado ao órgão pagador, por exemplo em uma internação por infarto. A Primeira Seção do STJ reafirmou, no AgInt no PUIL 3.606/RS, julgado em 15/10/2024, que a isenção começa na data do diagnóstico, e não na data do laudo. Relatórios de internação, laudos de cateterismo e ecocardiogramas antigos são as melhores provas desse marco.

Quem tem direito e o que fica isento

Têm direito aposentados do INSS e de regimes próprios, pensionistas, militares reformados e quem recebe complementação de aposentadoria ou resgata previdência privada. A isenção alcança aposentadoria, reforma, pensão, PGBL, VGBL e o 13º. Salário de quem continua trabalhando segue tributado, conforme o Tema 1037 do STJ.

Veja também os artigos sobre pensionistas com doença grave e sobre previdência privada.

Como pedir a isenção

O pedido para suspender o desconto é feito a quem paga o benefício: no Meu INSS, para aposentados e pensionistas do INSS; no setor de recursos humanos ou instituto de previdência, para servidores; na unidade pagadora, para militares; e na entidade do plano, para previdência privada.

Se o pedido for negado, ou reconhecido só a partir do laudo oficial, a ação judicial permite discutir o período completo. O STF decidiu no Tema 1373 que a ação não depende de pedido administrativo prévio. Para aposentados do INSS e servidores federais, a ação é contra a União, na Justiça Federal. Para servidores estaduais e municipais, contra o próprio ente, na Justiça Estadual (Tema 364 do STF e Súmula 447 do STJ). Quem tem doença grave tem prioridade na tramitação do processo (art. 1.048, I, do Código de Processo Civil).

O passo a passo está no guia como solicitar a isenção de Imposto de Renda por doença grave.

Por que os pedidos por cardiopatia são negados

  • Laudo genérico: o documento nomeia a doença, mas não demonstra a gravidade com exames.
  • Doença controlada: a Súmula 627 do STJ dispensa sintomas atuais.
  • Cirurgia bem-sucedida: o procedimento não apaga o diagnóstico de cardiopatia grave.
  • Divergência com a perícia oficial: exige exames objetivos mais robustos e, muitas vezes, perícia judicial.
  • Reconhecimento só a partir do laudo: o STJ reafirmou que vale a data do diagnóstico.

Quanto é possível recuperar

Além de parar os descontos, é possível pedir a devolução do imposto pago nos cinco anos anteriores ao pedido, ou desde o diagnóstico, se for mais recente, com correção pela Selic (art. 39, § 4º, da Lei 9.250/1995). Para estimar o valor, use a calculadora de restituição do Imposto de Renda por doença grave.

Em resumo

A cardiopatia grave dá direito à isenção do Imposto de Renda sobre aposentadoria, reforma, pensão e previdência privada. Como a lei não define o conceito, o que decide é a prova da gravidade: classe funcional, fração de ejeção e demais exames, reunidos em um laudo que explique por que a doença é grave. Stent, marcapasso e cirurgia não garantem nem afastam o direito, e a melhora depois do tratamento não encerra a isenção. A devolução alcança os últimos cinco anos, desde o diagnóstico, com correção pela Selic.

Perguntas frequentes

Cardiopatia grave dá direito à isenção do Imposto de Renda?

Sim. Ela está na lista do art. 6º, XIV, da Lei 7.713/1988, e a isenção vale para aposentadoria, reforma, pensão e previdência privada.

O que é considerado cardiopatia grave?

A lei não define. A avaliação médica combina limitação funcional (classe NYHA), comprometimento objetivo do coração nos exames, como a fração de ejeção, e prognóstico.

Quem colocou stent tem direito à isenção?

Depende da doença de base. Stent após infarto com perda de função do coração tende a se enquadrar. Stent preventivo, sem disfunção, exige análise mais cuidadosa.

Marcapasso dá direito à isenção?

Em regra, o marcapasso definitivo por bloqueio avançado indica cardiopatia grave, mas o laudo deve explicar a doença que levou ao implante.

Hipertensão dá direito à isenção?

Isoladamente e controlada, em regra não. Pode dar quando causa lesão importante no coração, como insuficiência cardíaca ou hipertrofia significativa.

Fiz cirurgia e estou bem. Perco a isenção?

Não. A Súmula 627 do STJ dispensa a demonstração de sintomas atuais para manter a isenção.

Qual é o CID da cardiopatia grave?

Não há um CID único. O laudo informa o código da doença de base, como I50 para insuficiência cardíaca ou I25 para doença isquêmica crônica, e demonstra a gravidade com exames.

Preciso de laudo de perito oficial?

Na via administrativa, sim. Na Justiça, a Súmula 598 do STJ admite o laudo do cardiologista particular e outros documentos.

Desde quando posso receber o imposto de volta?

Desde a data do diagnóstico, limitado aos cinco anos anteriores ao pedido, com correção pela Selic.

Quem ainda trabalha tem isenção sobre o salário?

Não. Pelo Tema 1037 do STJ, a isenção alcança apenas aposentadoria, reforma e pensão.

Se você é aposentado, pensionista ou militar reformado com doença no coração e continua com desconto de Imposto de Renda, a equipe do Igor Menezes Advogados pode analisar os seus laudos e exames e indicar o caminho mais adequado. Fale com a equipe pelo WhatsApp.

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