Restituição do Imposto de Renda por doença grave: como recuperar o que foi descontado

Restituição do Imposto de Renda por doença grave: como recuperar o que foi descontado

Publicado em 24/10/2026 · 11 min de leitura · Igor Menezes Advogados (OAB/RS 12.534)

Quem tem uma das doenças graves da Lei 7.713/1988 e continuou sofrendo desconto de Imposto de Renda na aposentadoria, pensão ou reforma pode recuperar o imposto pago indevidamente nos últimos cinco anos, desde a data do diagnóstico, corrigido pela Selic. A devolução pode ser buscada por declaração retificadora na Receita Federal ou por ação judicial. Na Justiça, o valor é pago por RPV ou por precatório, conforme o montante e o ente que paga o benefício.

Quando o aposentado descobre que tem direito à isenção, a primeira pergunta costuma ser “como faço para parar o desconto?”. A segunda, quase sempre, é “e o que já foi descontado, eu perco?”. A resposta é que não, desde que o pedido seja feito a tempo. A lei permite recuperar o imposto pago indevidamente, com correção, e o valor acumulado em cinco anos costuma ser expressivo.

Este guia explica como se calcula o que pode ser recuperado, como se conta o prazo, quais são os caminhos para pedir, quanto tempo leva para o dinheiro chegar e o que muda conforme quem paga o benefício.

Parar o desconto e recuperar o passado são coisas diferentes

O reconhecimento da isenção tem dois efeitos. O primeiro olha para o futuro: a fonte pagadora deixa de reter o imposto sobre o benefício. O segundo olha para o passado: o imposto já descontado desde o diagnóstico, dentro do prazo legal, é devolvido.

Muita gente resolve apenas a primeira parte. Pede a isenção ao INSS ou ao órgão pagador, o desconto para, e os anos anteriores ficam esquecidos. Como o prazo para pedir a devolução corre sem interrupção, esse esquecimento custa dinheiro a cada mês.

Quanto pode ser recuperado

O valor a recuperar é o imposto pago indevidamente sobre os rendimentos isentos, respeitados três limites:

  • a data do diagnóstico: a isenção, e portanto a devolução, começa na data em que a doença foi diagnosticada, e não na data do laudo apresentado no pedido. O STJ firmou esse entendimento no AREsp 1.156.742 e a Primeira Seção o reafirmou no AgInt no PUIL 3.606/RS, julgado em 15/10/2024. Se o diagnóstico é anterior à aposentadoria, o marco é o início da aposentadoria;
  • o prazo de cinco anos: parcelas mais antigas que isso estão perdidas, como se explica no próximo tópico;
  • o que já voltou nas declarações: o imposto retido na fonte é ajustado na declaração anual. Se em algum ano o aposentado recebeu restituição, parte do imposto retido já foi devolvida e precisa ser descontada da conta. O STJ consolidou essa regra na Súmula 394.

Na prática, o cálculo correto refaz cada declaração anual tratando os proventos como isentos e compara o resultado com o que foi efetivamente pago. A diferença, ano a ano, é o valor a recuperar, que recebe correção pela Selic.

O imposto descontado do 13º salário merece atenção à parte. Ele é tributado exclusivamente na fonte e não passa pelo ajuste da declaração anual. Por isso, nunca volta por restituição e entra integralmente na conta, dentro do prazo.

Como se conta o prazo de cinco anos

O prazo para pedir a devolução de tributo pago indevidamente é de cinco anos (art. 168 do Código Tributário Nacional). Para o imposto retido na fonte sobre a aposentadoria, que passa pelo ajuste anual, o STJ entende que esse prazo não começa a cada desconto mensal, mas na entrega da declaração anual do respectivo ano (REsp 1.472.182/PR, 2ª Turma, relator Ministro Mauro Campbell Marques). A própria Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional reconheceu que o tema está consolidado e dispensou seus procuradores de contestar e recorrer (Nota PGFN/CRJ 490/2017).

Em termos simples, o imposto descontado ao longo de um ano só começa a prescrever quando a declaração daquele ano é entregue, no ano seguinte. Isso dá um pequeno fôlego, mas não muda a lógica: a cada ano que passa sem pedido, um ano inteiro de imposto deixa de poder ser recuperado. A exceção é o imposto do 13º salário, que, por ser tributado exclusivamente na fonte, tem o prazo contado da data do desconto.

Um exemplo

Imagine um aposentado com desconto de R$ 800 de Imposto de Renda por mês e o mesmo valor no 13º salário. Em um ano, ele paga R$ 10.400. Em cinco anos, R$ 52.000, antes da correção pela Selic. Se em alguns desses anos ele recebeu restituição na declaração, esses valores são abatidos. O resultado final só pode ser conhecido refazendo as declarações, mas o exemplo mostra a ordem de grandeza.

Para uma estimativa do seu caso, use a calculadora de restituição do Imposto de Renda por doença grave.

Caminho 1: a declaração retificadora na Receita Federal

Pela via administrativa, o aposentado primeiro obtém o reconhecimento da isenção, com laudo de serviço médico oficial, como exige o art. 30 da Lei 9.250/1995. Depois, retifica as declarações dos anos anteriores, transferindo os proventos de rendimentos tributáveis para rendimentos isentos, e a Receita processa a restituição dos valores apurados.

A Receita Federal reconhece a isenção a partir do mês da aposentadoria, se a doença já existia; do mês da emissão do laudo, se a doença surgiu depois; ou da data em que a doença foi contraída, quando o laudo oficial identifica essa data (art. 6º, § 4º, da Instrução Normativa RFB 1.500/2014). Por isso, o alcance da devolução depende muito do que consta no laudo oficial. Quando ele não indica a data de início da doença, a isenção costuma ser reconhecida só a partir da sua emissão.

A via administrativa funciona bem quando o laudo oficial é favorável e traz a data correta. Os problemas mais comuns são a demora da perícia, laudos que fixam a isenção a partir da própria perícia, declarações retidas em malha fina e a necessidade de retificar ano a ano.

Caminho 2: a ação judicial

Na Justiça, a mesma ação reconhece a isenção, suspende os descontos futuros e condena à devolução dos valores pagos nos cinco anos anteriores. A Súmula 598 do STJ dispensa o laudo oficial quando a doença está comprovada por outros meios, como o laudo do médico particular e os exames. A data do diagnóstico pode ser demonstrada por qualquer documento médico, como receitas, exames e prontuários antigos. O STF decidiu no Tema 1373 que a ação não depende de pedido administrativo prévio.

A correção é feita pela Selic desde cada pagamento indevido (art. 39, § 4º, da Lei 9.250/1995). A ação é proposta contra a União, na Justiça Federal, para aposentados do INSS, servidores federais e militares das Forças Armadas; e contra o Estado ou o Município, na Justiça Estadual, para servidores e militares estaduais e municipais (Tema 364 do STF e Súmula 447 do STJ). Quem tem doença grave tem prioridade na tramitação (art. 1.048, I, do Código de Processo Civil).

Por reunir isenção e devolução, aceitar o laudo particular e partir da data do diagnóstico, a via judicial acaba sendo, na maioria dos casos, o caminho mais eficiente.

Quando o dinheiro chega: RPV ou precatório

Depois da decisão final, o valor da condenação é pago de uma de duas formas, conforme o montante:

  • Requisição de Pequeno Valor (RPV): para valores até o limite fixado em lei, com pagamento em regra em até 60 dias;
  • Precatório: para valores acima desse limite. Os precatórios apresentados até 2 de abril devem ser pagos até o fim do ano seguinte (art. 100, § 5º, da Constituição).

O limite da RPV muda conforme quem paga:

Quem paga o benefício Limite da RPV
União (INSS, servidores federais, Forças Armadas) 60 salários mínimos (Lei 10.259/2001)
Estados e Distrito Federal O valor fixado em lei de cada ente, que não pode ser inferior ao maior benefício do INSS. Sem lei própria, 40 salários mínimos
Municípios O valor fixado em lei de cada Município. Sem lei própria, 30 salários mínimos

A diferença pode ser grande. No Rio Grande do Sul, por exemplo, o limite da RPV estadual é de 10 salários mínimos para processos com decisão definitiva a partir de 17/11/2015 (Lei Estadual 14.757/2015). Uma devolução de cinco anos a um servidor ou militar estadual facilmente ultrapassa esse valor.

Quando o valor supera o limite, o credor pode renunciar ao que excede e receber por RPV, de forma mais rápida, ou receber o valor integral por precatório. Idosos a partir de 60 anos e pessoas com doença grave têm preferência no pagamento de precatórios, até o triplo do limite da RPV (art. 100, § 2º, da Constituição). Alguns Estados pagam precatórios por um regime especial, com prazos mais longos. A escolha entre as alternativas depende do valor, da idade, da saúde e da situação do ente devedor, e deve ser feita com orientação.

A devolução não é renda nova

O valor recebido corresponde ao próprio imposto pago indevidamente. A Receita Federal classifica a restituição do imposto sobre a renda entre os rendimentos isentos e não tributáveis. Depois de reconhecida a isenção, as declarações seguintes devem informar os proventos como rendimentos isentos de portador de moléstia grave. O artigo sobre como pedir a isenção do Imposto de Renda por doença grave explica como declarar.

E se o aposentado já faleceu?

O direito à devolução do imposto pago em vida não se perde com o falecimento (STJ, AREsp 2.866.825). O caminho, porém, depende do inventário e da representação do espólio, e deve ser avaliado caso a caso.

Em resumo

Quem tem doença grave e sofreu desconto de Imposto de Renda sobre aposentadoria, pensão ou reforma pode recuperar o imposto pago indevidamente nos últimos cinco anos, desde o diagnóstico, com correção pela Selic, abatido o que já voltou nas declarações anuais. O prazo conta da entrega de cada declaração anual, e do desconto, no caso do 13º salário. A retificadora depende do laudo oficial; a ação judicial aceita o laudo particular e reúne isenção e devolução. Na Justiça, o pagamento sai por RPV ou precatório, e o limite da RPV varia conforme o ente que paga o benefício.

Perguntas frequentes

Quantos anos de Imposto de Renda posso recuperar?

Os últimos cinco anos, contados da entrega de cada declaração anual, e desde a data do diagnóstico, se ela for mais recente.

A devolução é corrigida?

Sim, pela Selic. Na ação judicial, a correção corre desde cada pagamento indevido (art. 39, § 4º, da Lei 9.250/1995).

Já recebi restituição nas minhas declarações. Ainda tenho algo a recuperar?

Provavelmente sim. O que já voltou é abatido, mas a diferença entre o imposto pago e o imposto que seria devido com os proventos isentos continua a ser devolvida. O imposto do 13º salário nunca volta na declaração.

Posso pedir a devolução pela própria Receita Federal?

Sim, por declaração retificadora, depois de obter o reconhecimento da isenção com laudo de serviço médico oficial. A devolução fica limitada à data que esse laudo reconhecer.

Preciso pedir primeiro na Receita ou no INSS para entrar na Justiça?

Não. O STF decidiu no Tema 1373 que a ação não depende de pedido administrativo prévio.

Quanto tempo demora para receber na ação judicial?

Depende da duração do processo e da forma de pagamento. Depois da decisão final, a RPV é paga em regra em até 60 dias. O precatório apresentado até 2 de abril deve ser pago até o fim do ano seguinte.

O limite da RPV é o mesmo para todos?

Não. Contra a União, é de 60 salários mínimos. Contra Estados e Municípios, depende da lei de cada ente. No Rio Grande do Sul, é de 10 salários mínimos.

Vou pagar imposto sobre o valor devolvido?

Não sobre o imposto devolvido em si. A Receita Federal classifica a restituição do imposto sobre a renda entre os rendimentos isentos e não tributáveis.

O aposentado faleceu. A família pode recuperar o imposto?

O direito não se perde, mas o pedido depende do inventário e da representação do espólio, e deve ser analisado caso a caso.

Se você tem doença grave, recebe aposentadoria, pensão ou reforma e continuou com desconto de Imposto de Renda, a equipe do Igor Menezes Advogados pode calcular o valor a recuperar e indicar o caminho mais adequado. O atendimento é feito a distância, para aposentados de todo o Brasil. Fale com a equipe pelo WhatsApp.

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