Hepatopatia grave dá direito à isenção do Imposto de Renda? Guia para aposentados e pensionistas

Hepatopatia grave dá direito à isenção do Imposto de Renda? Guia para aposentados e pensionistas

Publicado em 06/08/2026 · Atualizado em 12/10/2026 · 11 min de leitura · Igor Menezes Advogados (OAB/RS 12.534)

Sim. A hepatopatia grave está na lista do art. 6º, XIV, da Lei 7.713/1988, e o aposentado, pensionista ou militar reformado que a tem fica isento do Imposto de Renda sobre os proventos. Como a lei exige que a doença do fígado seja grave, o laudo precisa demonstrar a gravidade, em geral pela cirrose com classificação Child-Pugh B ou C, MELD elevado, complicações como ascite ou varizes, ou transplante. O direito continua com a doença controlada (Súmula 627 do STJ), e é possível recuperar o imposto dos últimos cinco anos, desde o diagnóstico.

Doenças crônicas do fígado avançam devagar e em silêncio. Muitos aposentados convivem por anos com hepatite B ou C, esteatose ou doença hepática ligada ao álcool, até que a cirrose ou uma complicação revela a gravidade do quadro. Nesse momento, além do tratamento, surge um direito pouco conhecido: a isenção do Imposto de Renda sobre a aposentadoria ou a pensão.

Este guia explica o que se considera hepatopatia grave, quais doenças costumam se enquadrar, como a gravidade é medida, o que o laudo deve conter e como pedir a isenção e a devolução do imposto pago.

O que diz a lei

O art. 6º, XIV, da Lei 7.713/1988 isenta do Imposto de Renda os proventos de aposentadoria e reforma de quem tem hepatopatia grave, e o inciso XXI estende a isenção às pensões. A lei, porém, não define o que é hepatopatia grave. A definição vem da medicina especializada e é aplicada pelos peritos e pelos juízes caso a caso.

Por isso, ter uma doença no fígado não basta. Assim como na cardiopatia e na nefropatia, o que decide é a prova de que a doença compromete de forma importante a função do fígado.

O que é a cirrose e por que ela importa

A cirrose é uma doença crônica em que o tecido normal do fígado é substituído, aos poucos, por cicatrizes (fibrose) e nódulos, que alteram a arquitetura do órgão e prejudicam o seu funcionamento. Como o fígado é responsável por funções essenciais, como metabolizar nutrientes, armazenar vitaminas e eliminar toxinas, essa perda de função tem efeitos no corpo inteiro. A cartilha Cirrose e suas Complicações, da Sociedade Brasileira de Hepatologia, explica esse processo em detalhes.

Na maioria dos casos, a cirrose é silenciosa por muito tempo e o dano é permanente. Tratar a causa evita que a doença avance, mas o tratamento definitivo das formas mais avançadas só é possível com o transplante de fígado. É justamente nos estágios avançados e nas complicações da cirrose que a hepatopatia grave costuma ser reconhecida.

Doenças do fígado que podem levar à hepatopatia grave

Hepatopatia grave não é um diagnóstico específico, mas o estágio avançado de várias doenças do fígado. As causas mais comuns são:

  • consumo crônico de álcool;
  • hepatites virais crônicas, principalmente B, C e D;
  • gordura no fígado associada a obesidade e diabetes tipo 2, quando evolui para inflamação e fibrose;
  • hepatite autoimune;
  • colangite biliar primária e colangite esclerosante primária;
  • doenças hereditárias, como hemocromatose, doença de Wilson e deficiência de alfa-1 antitripsina;
  • uso prolongado de medicamentos tóxicos para o fígado.

Quando qualquer uma delas evolui para cirrose avançada, insuficiência do fígado ou complicações graves, o quadro tende a ser enquadrado como hepatopatia grave.

Hepatites virais: quais podem levar à isenção

As hepatites virais se dividem em cinco tipos, e eles têm comportamentos muito diferentes, como explica o Hospital Israelita Albert Einstein:

  • Hepatites A e E: em regra, são infecções agudas, que se resolvem e não se tornam crônicas. Por isso, normalmente não levam à isenção.
  • Hepatite B: pode se tornar crônica, não tem cura, mas pode ser controlada com medicamentos. Na forma crônica, aumenta o risco de cirrose, insuficiência do fígado e câncer.
  • Hepatite C: costuma não dar sintomas e é descoberta em exames de rotina. Hoje tem cura em cerca de 95% dos casos com os antivirais de ação direta, mas, sem tratamento, pode evoluir para cirrose ou câncer de fígado.
  • Hepatite D: só ocorre em quem tem hepatite B e pode agravar o dano ao fígado.

Em todos os casos, a hepatite sozinha não basta. O direito surge quando ela causa hepatopatia grave, em geral cirrose avançada, ou câncer de fígado.

Como a gravidade é medida

Na prática, peritos e médicos usam escalas e sinais clínicos consolidados na hepatologia:

  • Classificação de Child-Pugh: avalia bilirrubina, albumina, coagulação (INR), ascite e encefalopatia. A classe A indica cirrose compensada; as classes B e C indicam comprometimento moderado a grave.
  • Escore MELD: calculado a partir de bilirrubina, creatinina e INR, é usado inclusive para priorizar o transplante. Valores mais altos indicam maior gravidade.
  • Complicações de descompensação: ascite (acúmulo de líquido no abdômen), varizes de esôfago com sangramento, encefalopatia hepática, peritonite bacteriana espontânea e síndrome hepatorrenal.

Referências da área, como o material da Hepcentro sobre hepatopatia grave na legislação, apontam a classe C de Child-Pugh, o MELD elevado e as complicações de descompensação como os critérios mais usados. A classe B também pode ser enquadrada, conforme o conjunto dos exames e a evolução da doença.

Situações comuns: tem direito ou não?

Situação Isenção
Cirrose descompensada (Child-Pugh B ou C) Em regra, sim
Cirrose com varizes de esôfago, ascite ou encefalopatia Em regra, sim
Transplante de fígado Em regra, sim
Câncer de fígado (hepatocarcinoma) Sim, como neoplasia maligna, sem exigência de gravidade
Cirrose compensada (Child-Pugh A) Exige análise dos exames e da evolução
Hepatite B ou C crônica sem cirrose Em regra, não basta sozinha
Esteatose (gordura no fígado) sem inflamação ou fibrose avançada Não

O câncer de fígado é um caso à parte: ele dá direito como neoplasia maligna, hipótese em que a lei não exige gravidade. Veja o guia de isenção do Imposto de Renda por câncer.

Hepatite C curada e transplante: o direito continua

Dois cenários geram muitas dúvidas. O primeiro é o de quem tratou a hepatite C com os antivirais atuais, em tratamentos de 8 a 12 semanas, e eliminou o vírus. A cura da infecção, porém, não desfaz a cirrose que ela já causou. O segundo é o de quem passou por transplante de fígado e hoje vive bem. Nos dois casos, se a hepatopatia grave já estava caracterizada, a melhora posterior não retira o direito.

A Súmula 627 do STJ dispensa a demonstração de sintomas atuais e de recidiva para conceder ou manter a isenção. O tema está no artigo sobre doença grave curada ou controlada.

Qual é o CID da hepatopatia grave

Não existe um CID único. O laudo informa o código da doença de base, e a gravidade é demonstrada pelos exames. Os códigos mais comuns da CID-10 são:

  • K70: doença alcoólica do fígado;
  • K72: insuficiência hepática;
  • K74: fibrose e cirrose hepáticas;
  • K75.4: hepatite autoimune;
  • K76.6: hipertensão portal;
  • B18: hepatite viral crônica;
  • C22: neoplasia maligna do fígado;
  • Z94.4: fígado transplantado.

O que o laudo deve conter

Na via administrativa, o art. 30 da Lei 9.250/1995 exige laudo de serviço médico oficial. Na Justiça, a Súmula 598 do STJ admite o laudo do hepatologista ou gastroenterologista particular e outros documentos. O laudo deve trazer:

  1. o diagnóstico e o CID da doença de base;
  2. a afirmação expressa de que se trata de hepatopatia grave, com a justificativa;
  3. a classificação de Child-Pugh e o escore MELD, com os valores;
  4. as complicações apresentadas, como ascite, varizes ou encefalopatia;
  5. a data do diagnóstico;
  6. nome, assinatura, CRM e carimbo do médico.

Os exames que sustentam o laudo também devem ser reunidos: bilirrubina, albumina, INR, creatinina e plaquetas; ultrassonografia, elastografia, tomografia ou ressonância; endoscopia com descrição de varizes; biópsia, se houver; e relatórios de internação por complicações.

A data do diagnóstico define quanto você recupera

Na hepatopatia, é comum que a cirrose tenha sido constatada em uma internação anos antes do laudo apresentado à fonte pagadora. A Primeira Seção do STJ reafirmou, no AgInt no PUIL 3.606/RS, julgado em 15/10/2024, que a isenção começa na data do diagnóstico, e não na data do laudo. Relatórios de internação e exames antigos são a melhor prova desse marco.

Quem tem direito e o que fica isento

Têm direito os aposentados do INSS e de regimes próprios, os pensionistas, os militares reformados e quem recebe complementação de aposentadoria ou resgata previdência privada, seja PGBL ou VGBL. Salário de quem ainda trabalha continua tributado, conforme o Tema 1037 do STJ. Veja também os artigos sobre pensionistas e previdência privada.

Como pedir a isenção

O pedido não é feito à Receita Federal, mas a quem paga o benefício: no Meu INSS, para aposentados e pensionistas do INSS; no órgão de gestão de pessoas ou instituto de previdência, para servidores; na unidade pagadora, para militares; e na entidade do plano, para previdência privada.

Se a perícia negar a gravidade, ou se a isenção for reconhecida só a partir do laudo oficial, a ação judicial permite discutir o período completo, com perícia judicial quando necessário. O STF decidiu no Tema 1373 que a ação não depende de pedido administrativo prévio. Para aposentados do INSS e servidores federais, a ação é contra a União, na Justiça Federal; para servidores estaduais e municipais, contra o próprio ente, na Justiça Estadual (Tema 364 do STF e Súmula 447 do STJ). Quem tem doença grave tem prioridade na tramitação (art. 1.048, I, do Código de Processo Civil). O passo a passo está no guia como pedir a isenção do Imposto de Renda por doença grave.

Por que os pedidos são negados

  • Laudo sem gravidade demonstrada: cita a doença, mas não traz Child-Pugh, MELD nem complicações.
  • Exames desatualizados ou incompletos: faltam os resultados que sustentam a classificação.
  • Doença controlada após tratamento: a Súmula 627 do STJ dispensa sintomas atuais.
  • Reconhecimento só a partir do laudo: o STJ reafirmou que vale a data do diagnóstico.

Quanto é possível recuperar

Além de parar os descontos, é possível pedir a devolução do imposto pago nos cinco anos anteriores ao pedido, ou desde o diagnóstico, se for mais recente, com correção pela Selic (art. 39, § 4º, da Lei 9.250/1995). Para estimar o valor, use a calculadora de restituição do Imposto de Renda por doença grave.

Em resumo

A hepatopatia grave dá direito à isenção do Imposto de Renda sobre aposentadoria, reforma, pensão e previdência privada. Como a lei não define o conceito, o que decide é a prova da gravidade: cirrose com Child-Pugh B ou C, MELD elevado, complicações de descompensação ou transplante, reunidos em um laudo com os exames. O câncer de fígado dá direito como neoplasia maligna, sem exigência de gravidade. A melhora após o tratamento não encerra a isenção, e a devolução alcança os últimos cinco anos, desde o diagnóstico, com correção pela Selic.

Perguntas frequentes

Hepatopatia grave dá direito à isenção do Imposto de Renda?

Sim. Ela está na lista do art. 6º, XIV, da Lei 7.713/1988, e a isenção vale para aposentadoria, reforma, pensão e previdência privada.

Cirrose dá direito à isenção?

A cirrose descompensada ou com complicações, em regra, sim. A cirrose compensada, classe A de Child-Pugh, exige análise dos exames e da evolução.

Hepatite C dá direito à isenção?

A hepatite C crônica, sozinha, em regra não basta. Dá direito quando evolui para cirrose avançada ou outra forma de hepatopatia grave.

Curei a hepatite C com remédio. Perco a isenção?

Não, se a hepatopatia grave já estava caracterizada. A Súmula 627 do STJ dispensa sintomas atuais para manter a isenção.

Quem fez transplante de fígado tem direito?

Em regra, sim. O transplante indica que a doença era grave, e a boa evolução depois dele não retira o direito.

Hepatite A dá direito à isenção?

Em regra, não. A hepatite A é uma infecção aguda, que se resolve e não se torna crônica.

Gordura no fígado dá direito à isenção?

A esteatose simples, não. Só quando evolui para inflamação, fibrose avançada ou cirrose com gravidade demonstrada.

Câncer de fígado é hepatopatia grave?

Ele dá direito como neoplasia maligna, outra hipótese da lei, que não exige demonstração de gravidade.

Desde quando posso receber o imposto de volta?

Desde a data do diagnóstico, limitado aos cinco anos anteriores ao pedido, com correção pela Selic.

Se você é aposentado, pensionista ou militar reformado com doença no fígado e continua com desconto de Imposto de Renda, a equipe do Igor Menezes Advogados pode analisar os seus laudos e exames e indicar o caminho mais adequado. Fale com a equipe pelo WhatsApp.

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